O esforço de Pequim para impulsionar a segurança alimentar criou um excesso de carne e laticínios que o país não consegue consumir. Agora, os exportadores de proteínas da China estão aproveitando a produção excedente para remodelar os mercados globais de alimentos, deixando os concorrentes tradicionais correndo para competir com rivais de menor custo.
TENGZHOU, China — Em um escritório com forte cheiro de cigarro, Dang Yangyang está sentado de forma relaxada em um sofá de couro preto, parecendo exausto. O gerente geral da Wintop Food passou os últimos dias ciceroneando clientes de Gana, Iraque, Jordânia, Rússia e Senegal. Todos querem a mesma coisa: frango chinês.
A Wintop processa 60 milhões de frangos anualmente, vendendo peitos, nuggets, almôndegas e bolinhos (dumplings) para mais de 20 países. As exportações responderam por metade dos lucros da empresa no ano passado e estão financiando uma expansão de cerca de 13 hectares (33 acres).
"Os clientes internacionais costumavam desconfiar da qualidade", disse Dang, de 44 anos, à Reuters durante uma visita às suas instalações em agosto. "Mas quando a carne é US$ 1.000 mais barata por tonelada do que a de concorrentes brasileiros e tailandeses, eles precisam comprar da China ou ficam de fora."
A empresa faz parte de uma onda de produtores de proteínas chineses que estão superando o histórico irregular de segurança alimentar do país e aproveitando capacidade adicional para conquistar espaço nas prateleiras dos supermercados globais.
A mudança nos hábitos alimentares domésticos e a ênfase de Pequim na segurança alimentar empurraram as empresas a investir em tecnologia e expansão. Agora, elas produzem mais do que a China consegue consumir e estão desovando o excesso de produção no exterior.
A alta de proteínas chinesas baratas está atraindo o escrutínio de produtores e reguladores ocidentais, sinalizando novas fricções comerciais. O padrão ecoa a estratégia de Pequim no aço, painéis solares e veículos elétricos — inundando mercados com produtos de baixo preço que minam os rivais globais.
Em julho, a Comissão Europeia abriu uma investigação anti-dumping sobre importações de pato de Pequim, após produtores locais alegarem que subsídios chineses criaram concorrência desleal. No mês passado, a comissão impôs taxas anti-dumping entre 41% e 67% sobre a proteína de ervilha chinesa. O frango evitou ações semelhantes até o momento, embora as autoridades europeias estejam monitorando o mercado, disse um porta-voz da comissão à Reuters.
Agricultura e alimentos estão entre as poucas categorias em que a China ainda registra déficit comercial. Com pouco mais de US$ 100 bilhões no ano passado, o fosso é gigantesco, mas está encolhendo.
A China, que já é a maior fonte mundial de exportações de frutos do mar, tornou-se exportadora líquida de frango no ano passado. No geral, o país exportou o equivalente a US$ 2,6 bilhões em produtos de frango no ano passado, quase o dobro dos níveis de 2020, mostram dados alfandegários. As exportações de laticínios estão no caminho de atingir US$ 600 milhões este ano, dobrando em três anos.
Para os consumidores globais, a tendência significa proteína mais barata. Para produtores estrangeiros, da Europa à Tailândia e ao Brasil, significa novos concorrentes.
A transição da China de comprador para exportador emergente está tendo um efeito "desestabilizador" no mercado global de carne, disse Michael Boddington, consultor de agronegócios baseado em Pequim. Na Ásia, segundo ele, os carregamentos tradicionalmente vinham da Europa e das Américas. Agora, há uma alternativa mais barata — e produtores globais estão correndo atrás para competir.
Os ministérios da Agricultura e do Comércio da China não responderam às perguntas da Reuters sobre o forte crescimento das exportações de proteínas do país.
Por décadas, proteína na China significou carne de porco. Os porcos alimentaram os trabalhadores que construíram as cidades e integraram as fábricas que impulsionaram o boom econômico do país. A China passou a abrigar metade dos suínos do mundo, cujo apetite por grãos — especialmente soja — redesenhou os fluxos comerciais do Meio-Oeste americano para o Brasil.
O apetite do país por carne suína garantiu o sustento de pequenos agricultores como Huang Weiying, que começou a criar porcos em sua vila na província de Hebei há 20 anos, chegando a ter mais de 500 cabeças no pico.
"Os preços dos porcos estão tão baixos. As pessoas nas cidades simplesmente pararam de comer carne de porco." — Huang Weiying, criadora de suínos na província de Hebei.
Mas essa era acabou. Quando a Reuters visitou Huang em agosto, ela estava jogando lavagem para seus últimos 10 porcos em um celeiro coberto de teias de aranha. Encalhada em cerca de US$ 75 mil em dívidas, ela planejava sacrificá-los até o outono.
"Crio porcos há mais de duas décadas, mas nunca foi tão difícil quanto nos últimos dois anos", disse Huang, de 57 anos. "Os preços dos porcos estão tão baixos. As pessoas nas cidades simplesmente pararam de comer carne de porco."
Os cortes de carne suína mais gordurosos, comuns na culinária tradicional chinesa, perderam o favor dos habitantes urbanos preocupados com a saúde. O consumo per capita de carne suína caiu 13% desde o pico em 2023, segundo dados oficiais e da mídia estatal. O consumo de frango, por sua vez, subiu mais de 50% por capita na década encerrada em 2024.
Ainda assim, a produção continuou a se expandir nos setores de carne e laticínios da China. Autoridades incentivaram uma construção maciça com subsídios direcionados a grandes produtores corporativos para impulsionar a segurança alimentar e reconstruir rebanhos após o surto de peste suína africana de 2018 e a pandemia de Covid-19.
Os subsídios responderam por cerca de 13% da receita agrícola bruta dos produtores chineses entre 2022 e 2024, de acordo com a OCDE — quase o triplo do nível do início dos anos 2000. Hoje, fazendas subsidiadas contribuem para o excesso de capacidade.
A produção atingiu novos recordes apesar da desaceleração econômica, da demanda interna morna e da população em declínio, mostram dados do governo. No ano passado, a China produziu um recorde de 59 milhões de toneladas métricas de carne suína; a produção de aves subiu 7%. O setor de laticínios superou as metas oficiais para a produção de 2025 dois anos antes do previsto.
Os preços da carne suína foram os mais atingidos porque a demanda interna está mais fraca, mas os preços também caíram para aves e laticínios.
Para os grandes produtores que predominam cada vez mais, a saída são as exportações.
"Todas as empresas pecuárias chinesas planejam expandir para o exterior. Se você quer crescer, tem que ir para fora", disse Zhang Yuan, chefe de marketing de fórmulas infantis na gigante de laticínios Yili, que planeja começar a vender fórmulas no Sudeste Asiático já no próximo ano.
Trata-se de um passo simbólico para a maior empresa de laticínios da Ásia, cujos produtos lácteos foram retirados do mercado em uma repressão do governo em 2008, após a contaminação por melamina adoecer milhares de bebês. O escândalo afastou os consumidores do leite doméstico por mais de uma década. No entanto, o leite em pó infantil da Yili é atualmente a marca mais vendida na China.
A concorrente da Yili, a Feihe, lançou sua fórmula infantil AceKid na Indonésia em abril para competir com a Nestlé e a Mead Johnson, após introduzir o produto nas Filipinas um ano antes. A Feihe não respondeu aos pedidos de comentário.
Os produtores de aves estão trilhando um caminho semelhante. Na Wintop, na província de Shandong, o gerente Dang aumentou o número de frangos em cada galpão de 20.000 para 120.000 em uma década. As aves pesam em média 2,5 kg — comparado a 2,2 kg para frangos de corte do Brasil, segundo a S&P Global. Eles são abatidos em menos de 42 dias, em vez de 45, aproximando-se do padrão americano de 35 dias.
O governo local de Tengzhou está subsidiando a folha de pagamento dos mais de 2.000 trabalhadores da Wintop, informou a empresa à Reuters, sem dar detalhes. As autoridades de Tengzhou não responderam a um pedido de comentário.
À medida que os produtores chineses vão para o exterior, eles arrebatam fatias de mercado de concorrentes consolidados.
O leite em pó chinês agora compete com produtos da Nova Zelândia e da Europa em países como Nigéria e Bangladesh, e está deslocando produtores indianos e iranianos no Oriente Médio, segundo Yifan Li, analista de laticínios na corretora de commodities StoneX.
A China dobrou sua fatia no mercado europeu de aves processadas para 10% desde 2022 e triplicou sua fatia no Reino Unido para mais de 14%, de acordo com dados da Gira, uma consultoria de alimentos. Esse crescimento desafia produtores como os da Alemanha. A fatia da China no mercado japonês também está subindo, enquanto o líder, a Tailândia, recua.
"É muito preocupante", disse Kukrit Arepagorn, gerente da Associação de Exportadores de Processamento de Frango da Tailândia (Thai Broiler Processing Exporters Association). "Os clientes usam cada vez mais os preços baratos do frango chinês como ponto de referência para negociações."
Ezequiel Pires, presidente da trader internacional de carnes Branexx, sediada em Lisboa, afirmou que sua empresa começou a comprar aves chinesas em março, após clientes africanos buscarem alternativas mais baratas às importações brasileiras. O peito e as coxas de frango chineses são de 10% a 20% mais baratos do que os produtos brasileiros, disse Pires.
A China ainda não se livrou totalmente de algumas associações negativas decorrentes de escândalos persistentes de segurança alimentar, dizem analistas. Para seus exportadores, o desafio é construir "confiança duradoura na segurança, rastreabilidade e consistência de seus produtos", pontua Gordon Butland, diretor da G&S Agriconsultants, com sede em Bangkok.
Na UE, os alimentos importados devem atender aos mesmos padrões de saúde e segurança que a produção local, disse a Comissão Europeia à Reuters. O bloco planeja fortalecer a rotulagem de origem da UE, começando com produtos avícolas em 2027.
Alguns clientes preferem aves tailandesas por seu sabor e qualidade consistentes, disse Rupert Claxton, diretor de carne e pecuária da Gira. Ainda assim, para muitos clientes, o ponto de preço mais baixo da China é o fator principal.
"Estamos exportando para qualquer país que pudermos", disse Dang, da Wintop. "Se você tem uma vantagem de preço significativa, muitos clientes o procuram ativamente."
Fonte: https://www.reuters.com/