Setor vê retomada gradual dos bookings, mas alerta para aumento de custos e atrasos devido à guerra na região.
Alguns armadores que haviam suspendido novos contratos de embarque de carne de frango para rotas que passam pela região do Oriente Médio voltaram a aceitar reservas, os chamados bookings. As informações são da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que representa gigantes do setor como MBRF e Seara, do grupo JBS.
Segundo o presidente da ABPA, Ricardo Santin, a paralisação, noticiada no início desta semana, atingiu principalmente novos contratos logo após o início do conflito. “O que a gente tem de evolução, do início do conflito para hoje, é a liberação do acesso ao Mar Vermelho. Com isso, algumas das operadoras, alguns dos armadores, três deles já estão fazendo bookings novos”, disse ao Agro Estadão.
Apesar disso, o dirigente ressalta que a normalização da logística ainda está longe de acontecer. Desde o início da guerra, as empresas marítimas decidiram garantir o envio de cargas que já estavam contratadas antes da escalada do conflito, porém, os prazos de entrega deverão sofrer alteração, elevando os custos. “As empresas armadoras disseram: ‘tudo o que estava contratado, pronto para ir, vai sair’. Não quer dizer que vai chegar na data que havia previsto, mas ele vai sair”, explicou.
Como alguns navios já estão em trânsito para a região, o setor também pensa em planos alternativos, caso o conflito persista até a chegada das embarcações à região. Uma das alternativas seria levar as cargas até Omã e os importadores dos Emirados Árabes buscarem a carga até Omã e os importadores dos Emirados Árabes buscarem a carga de caminhão para levar ao seu país, atravessando a fronteira.
Outra alternativa seria redirecionar parte da carga para outros mercados consumidores ou centros logísticos na Ásia, como Singapura e Vietnã, que, conforme explica Santin, são hubs de armazenamento. “Primeiro o Mapa [Ministério da Agricultura e Pecuária] precisa nos autorizar [a fazer o redirecionamento], depois nós vamos fazer o levantamento de quanto [de carga] está em água”, diz, ressaltando que começam a perceber uma melhora no fluxo da região, mesmo ainda existindo uma preocupação em relação ao tempo de duração da guerra.
Um sinal de melhora no fluxo, encarado com otimismo pelo setor, é a informação do governo do Irã de que o Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes e estratégicas do mundo, está fechado somente para os Estados Unidos, Israel, Europa e seus apoiadores. A medida dá sinais de que embarcações com produtos brasileiros poderão seguir pela rota.
Há expectativa também de que o tráfego seja normalizado no Canal de Suez. “Isso já aconteceu ano passado, fecha preventivamente, depois vê que não há bombardeios destinados àquela localização, aí reabre o canal de Suez também e já ajuda bastante”, afirma Santin.
Custos logísticos aumentam
As mudanças de rota e os atrasos no transporte, inevitavelmente, geram custos extras para as empresas exportadoras. Santin explica que isso acontece, uma vez que embarcações que deveriam ter chegado ao destino precisam permanecer em portos de segurança ou aguardando em alto-mar, o que gera despesas adicionais. “Segunda-feira deveria estar chegando navio lá, provavelmente esse navio não conseguiu chegar. Ele teve que parar em algum porto de segurança e está em mar, gastando combustível.”
Outro impacto ocorre quando a carga precisa ser enviada para destinos diferentes dos previstos inicialmente. “Outro custo é ter que sair de lá [Oriente Médio] e levar para Singapura. Por exemplo, ter contratado um frete de 100 quilômetros e ter que fazer um de 150 quilômetros. Então, vai aumentar o custo”, destacou, salientando que, além disso, nesses casos, o redirecionamento também pode afetar o preço final recebido pelo exportador.
Além do mais, os efeitos logísticos da guerra podem provocar atrasos na cadeia de transporte marítimo, atrasando os embarques destinados a outros mercados, como o da Ásia. “Isso atrasa um pouco, por quê? Porque aquilo que ia chegar lá amanhã vai chegar só depois de amanhã e já atrasou a chegada dele [navio] aqui na volta.”
Fonte: agro.estadao.com.br/pecuaria