Safra brasileira bateu recorde de 62,25 bilhões de ovos em 2025, mas sistemas livres de gaiolas ainda representam até 1,5% do mercado
Hoje, 78% do ovo britânico é de galinhas soltas, não é mais de galinhas estritamente confinadas. É uma tendência forte que vai acontecer no Brasil também”, diz Luiz Demattê, presidente da Associação Brasileira da Avicultura Alternativa (AVAL) e diretor técnico e de Sustentabilidade Corporativa do Grupo Korin, um dos principais produtores de aves e ovos orgânicos no País.
Seguem neste mesmo compasso, a Alemanha, a França e a Holanda. “Alguns países inclusive já proibiram manter as galinhas em gaiolas”, afirma ele. No Brasil, esse modelo ainda ocupa uma parcela pequena do mercado. Segundo Demattê, não há estatística que possa cravar os números deste tipo de produção .
No entanto, as estimativas indicam que possa representar entre 1% e 1,5% do total nacional da produção avícola. Isso significa até 930 milhões de ovos, de uma produção histórica de 62,25 bilhões de ovos produzidos em 2025 e um valor da produção de R$ 29,3 bilhões, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), entidade que reúne grande parte da cadeia produtiva do setor de aves e suínos no País.
A produção foi 59% acima dos 39,18 bilhões registrados em 2015. No mesmo período, o consumo passou de 191 para 288 ovos por habitante ao ano, consolidando o alimento entre as proteínas mais consumidas pelos brasileiros. Quase toda essa produção permanece no mercado interno, que absorve 98,58 % dos ovos.
“O ovo continua sendo uma das proteínas mais baratas disponíveis ao consumidor”, diz Demattê. “Produzir em sistemas diferenciados exige mais espaço, certificações e manejo específico. Tudo isso aumenta o custo da produção.”
A oferta de ovos produzidos em sistemas alternativos ainda avança lentamente nas redes varejistas e atacadistas. É o que mostra a terceira edição do Observatório do Ovo, levantamento elaborado pela Alianima, organização sem fins lucrativos que atua pela melhoria das condições de vida dos animais utilizados na indústria alimentícia.
O novo relatório, apresentado nesta terça-feira (14), mostra que 64% das redes de supermercados que divulgam indicadores permaneceram estagnadas ou até reduziram a participação de ovos de galinhas livres de gaiolas em suas gôndolas, no último ano.
Além disso, quatro das 17 empresas que assumiram compromisso público de substituir ovos produzidos em gaiolas nunca divulgaram qualquer atualização sobre o andamento das metas. Desde 2015, muitas empresas anunciaram compromissos para até meados de 2028 venderem exclusivamente ovos de galinhas livres de gaiolas. Fato é que a nova pesquisa não mostra muitos avanços neste aspecto.
Enquanto a produção brasileira continua crescendo, a transição das redes supermercadistas para ovos livres de gaiolas avança em ritmo mais lento. O Observatório do Ovo mostra que as empresas com maior participação desse tipo de produto são Grupo Mateus, St. Marche, GPA, Hirota, Natural da Terra e Verdemar.
Na direção oposta, o Carrefour reduziu a participação de ovos livres de gaiolas de 21,4% para 20,2%, enquanto o Cencosud passou de 14,4% para 14,2%. O Pague Menos deixou de divulgar a atualização dos indicadores nesta edição do levantamento.
No estudo, o Carrefour pontua o desafio desta transição. “A migração para sistemas livres de gaiolas exige investimentos relevantes em infraestrutura, manejo, biosseguridade e adequações sanitárias, ao mesmo tempo em que ocorre em um contexto de sensibilidade a preço e restrição do poder de compra, o que impacta diretamente o ritmo de expansão da demanda.”
O estudo também mostra que Mercadinhos São Luiz, Savegnago, Supermercados BH e DMA Distribuidora nunca apresentaram uma prestação de contas, desde que anunciaram seus compromissos públicos.
Entre as grandes redes sem compromisso formal aparecem Atacadão, Mart Minas, Muffato, Tenda Atacado, Koch, Giassi, Angeloni, Condor, Bahamas, Nagumo e Lopes Supermercados. Das 13 empresas convidadas pela primeira vez a participar do levantamento, apenas o Assaí respondeu aos pesquisadores.
Ovos e seus três modelos de produção nas granjas
Para Demattê, parte dessa expansão depende de o consumidor compreender que existem diferenças importantes entre os sistemas de produção. Segundo o presidente da AVAL, o mercado brasileiro reúne três sistemas distintos de produção de ovos.
O custo de produção nas granjas aumenta de um tipo a outro. Segundo Demattê, do convencional ao cage-free, o aumento é de cerca de 15%. Já do convencional ao caipira, o custo pode chegar até 35% a mais. Segundo o executivo, a velocidade dessa transformação dependerá da capacidade da cadeia produtiva de equilibrar bem-estar animal e competitividade.
Outro desafio apontado pelo dirigente da AVAL é a desinformação do consumidor. Muitas pessoas associam ovos de casca marrom ao sistema caipira, embora a coloração dependa apenas da raça da galinha. “A cor do ovo varia de acordo com a raça e a plumagem da galinha. O que muda é o sistema de produção”, afirma. Segundo ele, essa confusão favorece fraudes e prejudica produtores que seguem integralmente as normas técnicas desenvolvidas pela AVAL em conjunto com a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).
Fonte: https://forbes.com.br/