Agricultores franeceses seguem bloqueando ruas de Paris; agro brasileiro deve ampliar oportunidades.
Fontes do Conselho Europeu ouvidas por agências internacionais, como adiantado mais cedo pelo Notícias Agrícolas, confirmaram o sinal verde dado pela instituição à aprovação do acordo com o Mercosul, após 25 anos de negociações e discussões. A decisão precisa ser confirmada até às 13h (horário de Brasília), porém, os sinais parecem ser bastante claros de que, enfim, os dois blocos econômicos chegaram a um consenso e deverão firmar um dos maiores acordos comerciais da história recente.
De acordo com informações da agência de notícias Bloomberg, embaixadores da UE apoiaram o acordo em uma reunião em Bruxelas nesta sexta-feira (9), apesar da oposição da França e de vários outros países. A aprovação exigia apenas uma maioria qualificada dos Estados-membros. Com isso, as informações dão conta ainda de que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, provavelmente assine o acordo no Paraguai em 12 de janeiro.
“A conclusão do acordo comercial entre a UE e o Mercosul é uma ótima notícia para a influência geopolítica e econômica global da Europa. Para os europeus, a finalização de acordos de livre comércio com novos parceiros está entre as melhores respostas às tarifas americanas, ao crescente protecionismo e às tensões comerciais com a China”, disse Agathe Demarais, pesquisadora sênior do Conselho Europeu de Relações Exteriores, em um comunicado.
A aprovação do acordo no conselho ainda acontece sob forte oposição e protestos pela Europa. A França, maior produtor agrícola do continente,já anunciou que vota contra o acordo, porém, ainda vive dias de ruas bloqueadas por tratores e manifestantes na capital Paris.
"A França é favorável ao comércio internacional, mas o acordo UE-Mercosul é um acordo de outra época, negociado por muito tempo com base em princípios já ultrapassados. Não se justifica expor setores agrícolas sensíveis e essenciais a riscos para a nossa soberania alimentar", afirmou o presidente Emmanuel Macron em sua conta na rede social X.
Manifestações também foram registradas na Polônia, em Varsóvia, e na Itália, em Milão. A Itália foi, inclusive, uma peça decisiva na costura do acordo. Sua posição inicial era contrária, mas mudou depois de alguns de seus pleitos terem sido aceitos.
"Roma apoiou a proposta na reunião de sexta-feira, em parte devido ao dinheiro extra oferecido pela Comissão no início desta semana aos agricultores no próximo orçamento de longo prazo da UE. As medidas de salvaguarda oferecidas aos agricultores também ajudaram a influenciar a Itália. Entre elas, o compromisso de abrir uma investigação sobre a possível suspensão das tarifas preferenciais caso haja um aumento no volume de importações da América do Sul ou uma queda nos preços em comparação com a média dos últimos três anos. O limite a partir do qual esta investigação seria iniciada foi fixado em 5%, abaixo da proposta mais recente de 8%, após pressão de países como Itália e França, bem como do Parlamento Europeu", afirma a Bloomberg.
“Nunca me opus ideologicamente ao Mercosul. Sou a favor de acordos de livre comércio. Mas também da regulamentação”, declarou a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, a jornalistas nesta sexta-feira.
OS NÚMEROS DO ACORDO
Os números do acordo dão conta de que um ambiente de 780 milhões de consumidores se estabelece com o pacto entre União Europeia e Mercosul. Dois dos maiores apoiadores do avanço no bloco europeu foram a Alemanha e a Espanha, já que conhecem a força das oportunidades de exportação que se abrem diante do acordo.
"Este é um um marco na política comercial europeia e um importante sinal da nossa soberania estratégica e capacidade de ação. Estamos fortalecendo nossa economia e relações comerciais com nossos parceiros na América do Sul – o que é bom para a Alemanha e para a Europa", afirmou o chanceler alemão Friedrich Merz.
Para o Brasil, os setores beneficiados no agronegócio são os mais diversos. No entanto, destacam-se soja - com a União Europeia sendo a maior importadora de farelo derivado - café, carne bovina e frutas.
"Para a fruticultura brasileira, esse acordo abre portas para ampliar o acesso a mercados estratégicos e fortalecer a competitividade das nossas frutas nos países europeus. A redução de barreiras tarifárias faz justiça a competitividade brasileira no cenário global, visto que alguns países não têm barreiras tarifarias para enviar suas frutas para Europa. Os exportadores de frutas brasileiras atendem as rigorosas exigências internacionais relacionadas a critérios sociais, ambientais e de governança. Esse avanço consolida ainda mais a fruticultura como um pilar fundamental nas exportações do agronegócio brasileiro”, afirmou ao Notícias Agrícolas, já no final de dezembro, o presidente da Abrafrutas (Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados), Guilherme Coelho.
Açúcar, etanol e suco de laranja são mais produtos com enorme destaque e com bons mercados já consolidados, além da celulose.
Há ainda outros mercados que têm espaço para que o Brasil amplie sua atuação, com o de feijões. "Sem dúvida que os europeus estão aumentando o consumo e nós somos competitivos. O projeto de Feijão Regenerativo se escaixa como uma luva para lá", afirma o presidente do Ibrafe (Instituto Brasileiro do Feijão), Marcelo Lüders. Além disso, ele destaca os investimentos do IAC (Instituto Agronômico de Campinas) em sementes que são consumidas na europa como o Navy Beans e Alubia. "Mas, isso não acontecerá sem investimento. Precisamos nos comunicar com o consumidor europeu e isso é um grande desafio. Precisamos aumentar o investimento, por exemplo, da APEX e tambem das agências de promoção dos estados", complementa Lüders.
Fonte: noticiasagricolas.com.br